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Arthur Neto amarga o triste fim de um líder político

14 dezembro 2020 - 23h09Por Silvio Rodrigues

Faltando 15 dias para a sua deplorável despedida da vida pública e da política, Arthur Virgílio Neto; um dos nomes mais bem conceituados da politica brasileira, começa sua entrada fúnebre nos portais do ostracismo e do esquecimento, sendo somente a partir de agora, lembrado pelos males que causou à cidade de Manaus nos últimos oito anos.

Arthur entregará a cidade ao seu sucessor com a aparência de terra arrasada, com feições de pós-guerra. São esgotos correndo nas sarjetas por conta de bueiros entupidos e sem manutenção, ruas esburacadas, mal iluminadas, pontos intrafegáveis, educação de faz de conta, onde crianças e jovens tiveram grandes prejuízos pela falta de metodologia no método aleatório imposto pela Secretaria de Educação, o que também causou sérios danos e despesas extras aos professores. Serviço de saúde adoentado, centro da cidade entregue às moscas e baratas e o povo sofrendo por tamanha falta de responsabilidade de um homem que trocou uma vida por uma paixão doentia.

Coronavirus, vala comum, inaugurações e oba-oba.

Bem ao estilo “Odorico Paraguaçu”, personagem da novela O Bem Amado, de Dias Gomes, Arthur embarcou na onda das inaugurações de obras inacabadas, outras desnecessárias e até inaugurando nomes de ruas tradicionais com intuito de agradar àqueles que podem ser seus algozes diante de tanta maldade praticada. Obras de ultima hora, superfaturadas, desnecessárias. Escândalos que vão de assassinato a enriquecimento ilícito de parentes, vexames públicos, prejuízos  morais e o fim de uma história brilhante que se acaba como o sol tomado por fumaça negra. Assim Arthur diz adeus à vida pública e a carreira politica.

Manaus contabilizava 1.771 mortes por Covid-19, em 29 de junho de 2020, quando o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PSDB), decidiu festejar a inauguração de um complexo viário na capital, que custou R$ 60 milhões. Contaminado pelo Coronavírus, ele reuniu uma multidão e fez festa, com direito a fogos de artifício. Horas mais tarde, foi internado em um hospital particular em Manaus, com 25% do pulmão comprometido. Passado alguns dias, viajou de jatinho rumo ao luxuoso Hospital Sírio Libanês, onde ficou internado por 29 dias, em São Paulo.

Para aqueles que, muito provavelmente, foram contaminados no evento (pelo próprio prefeito, quem sabe) e, obviamente, não poderiam viajar de jatinho para um hospital luxuoso, a Prefeitura de Manaus deu um conselho, à época: “A população que compareceu ao local (festa de inauguração do complexo viário), caso apresente algum sintoma, poderá buscar atendimento preferencial e fazer a testagem para a doença na recém inaugurada Clínica da Família Carmen Nicolau, localizada no bairro Lago Azul, Zona Norte”. Parece um deboche.

Não se sabe a lógica que leva um prefeito que “chora” em entrevistas a promover folguedo no meio de uma pandemia, com famílias enlutadas por mortos enterrados em valas comuns. Mas assim fez Arthur Virgílio Neto. É o mesmo personagem que decidiu fechar, antes da “festa do viaduto”, o hospital de campanha aberto pela Prefeitura de Manaus em parceria com empresa privada, para tratar de pacientes com Coronavírus. É o mesmo que, em maio, no auge da pandemia, resistiu à recomendação do Ministério Público do Estado de implementar um lockdown na capital, mas, agora, prega a medida. Ele sofre de bipolaridade?

Ao anunciar no dia 18 de setembro o fechamento da praia da Ponta Negra, como medida de controle para conter um novo avanço do Coronavírus, o prefeito afirmou, sobre o aumento dos números e a reabertura do comércio: “Essa pressa eu combati. Escrevi. Fiz Live. Avisei. Cansei de avisar”. A declaração define, de forma singular, o comportamento adotado pelo prefeito durante a pandemia. Arthur virou uma espécie de “comentarista da crise”. Dá opinião, avisa, critica, como se não fosse, ele próprio, o prefeito da cidade. Arthur sabe que fechar a praia da Ponta Negra gera impacto e mídia, mas não altera o ir e vir do cidadão, nem causa antipatia.

Teria o prefeito coragem de fechar o acesso ao Centro de Manaus, cuja multidão ali concentrada todo dia é incontavelmente maior que numa faixa de praia? Aliás, quais são as ações práticas empreendidas por Arthur para acabar com a aglomeração diária dentro do transporte coletivo e nos terminais de ônibus? Quantas multas foram aplicadas pelo não uso de máscara, na capital? Mais: se está mesmo preocupado com o fluxo de pessoas, por que ele não decreta o fechamento de shoppings ou não vai à Justiça para esse fim?

No Rio de Janeiro, em São Paulo e Porto Alegre, por exemplo, coube aos prefeitos das capitais assumirem o ônus sobre o fechamento e reabertura de shoppings, estipularem regras e estabelecerem fiscalização. Com números em alta, antes, também coube a eles mandar fechar lojas (lamentavelmente). Aqui, é visível que Arthur Neto não quer contato com ações que gerem desgaste, protesto ou revolta. Fica evidente a preocupação em preservar a própria imagem. É mais cômodo opinar, avisar, criticar, comentar.

Seguindo a estratégia de sempre, o prefeito ganhou mídia nacional ao propor um lockdown em Manaus. Mas ele próprio já disse que a medida teria como resultado a “rebeldia popular”. Arthur sabe que o confinamento não será decretado, mas também sabe que o assunto “rende” espaço na imprensa. Em rede social, aliás, ele expôs todas as manchetes que conquistou com a proposta. Talvez fosse esse o objetivo.

Em sã consciência, ninguém nega que todos devem redobrar os cuidados para evitar o contágio do Coronavírus ou disseminá-lo. É deplorável, entretanto, fazer uso de um drama coletivo para “surfar” na mídia, sem assumir ampla responsabilidade. Embora faça o papel de vereador, Arthur, vale lembrar, é chefe do Poder Executivo Municipal, mas optou por fazer “marketing” e usar a retórica para preencher manchetes. Pena que se trata de uma tragédia.

Renovação de contratos e obras de ultima hora

A Prefeitura contratou pelo valor astronômico de 10 milhões e 325 mil Reais a empresa J Nasser Engenharia, para demolir e talvez, construir outro terminal na Constantino Nery, o que pelo andar das obras, não será entregue em tempo hábil e ainda causará transtornos piores que os recorrentes no transito de Manaus. Algo parecido com a parada de ônibus da Ponta Negra. Aquela onde os passageiros sofrem com o desconforto, onde os motoristas de ônibus não querem parar e que custou R$ 207 mil Reais aos cofres públicos e não serve nem para se abrigar do sol ou chuva.

Arthur Neto manteve a empresa Manaus Luz na prestação dos serviços de manutenção e iluminação pública pelos próximos 15 anos, com um valor total de R$ 922,3 milhões. A iluminação Pública do município de Manaus tem sido alvo constantes improbidades administrativas tanto da Prefeitura, quanto de seu contrato com a empresa F.M. Rodrigues, mais conhecido como Manaus Luz.

Tudo se dá pelo histórico de enriquecimento e desserviços que a empresa trazida de São Paulo vem realizando junto ao município de Manaus, disfarçados pela atual febre do prefeito Arthur Neto com luminárias LED.

O secretário da Semulsp (Secretaria Municipal de Limpeza Urbana), Paulo Ricardo Rocha Farias, prorrogou até 2035, com ordem do Prefeito, dois contratos para serviços de coleta e transporte de lixo em Manaus, feito pelas empresas Tumpex Empresa Amazonense de Coleta de Lixo Ltda e Construtora Marquise S/A, dos empresários Mauro Lúcio Mansur da Silva e Thiago Gurgel de Oliveira Levy, respectivamente.

Os contratos foram assinados em 2003 ainda na gestão de Alfredo Nascimento na Prefeitura de Manaus. A vigência inicial dos contratos era de 5 anos prorrogáveis por mais 5, portanto, deveriam ser encerrados em 2013. Mas até hoje a Prefeitura de Manaus não realizou nova licitação.

Desde 2015 o Ministério Público de Contas vem contestando a validade dos contratos e agora, no final de sua desastrosa gestão, Arthur ousa renovar contratos por mais 15 anos sem licitação.

Escândalos e assassinato

O enteado de Arthur Virgílio Neto, Alejandro Valeiko, foi denunciado como um dos responsáveis pelo assassinato de um engenheiro na mansão da família durante uma festa regada a álcool e cocaína no ano passado. O enteado de Arthur Virgílio Neto, Alejandro Valeiko, denunciado por homicídio. Embora o Ministério Público do Amazonas tenha ignorado na denúncia a responsabilidade do poder público, havia na cena do crime um funcionário da segurança do prefeito, pago com dinheiro público, e um carro da prefeitura foi usado para tentar ocultar o cadáver.

Documentos confidenciais do processo de investigação pela Polícia Civil do Amazonas e o Ministério Público Estadual (MP-AM) contra Elizabeth Valeiko e familiares sobre lavagem de dinheiro foram vazados para vários sites de notícias e veículos de comunicação.

Os documentos sigilosos mostram a existência de uma investigação em curso realizada pelo Grupo de Atuação e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) do MP-AM contra a mulher do prefeito Arthur Virgílio, a filha Paola Valeiko Molina e o genro Igor Gomes Ferreira. Eles são investigados por crimes contra a administração pública e lavagem de dinheiro. A família Valeiko é suspeita de crescimento patrimonial ilícito e renda incompatível com os ganhos de seus integrantes. O documento cita a compra de uma franquia de pizza, no valor de R$3 milhões, casas em condomínios de luxo, concessionárias/locadoras de veículos e uma casa lotérica  

Empréstimos, vala comum e crise na pandemia

Faltando pouco mais de 6 meses para ser concluída, a gestão do prefeito Arthur Neto (PSDB) é a que mais fez empréstimos em bancos públicos nacionais e em instituições financeiras internacionais.

Segundo consulta feita ao site do Tesouro Nacional, sob o comando de Arthur desde 2013, a Prefeitura de Manaus emprestou R$ 2,5 bilhões. O político conclui seu 3º mandato em dezembro deste ano. De acordo com o Tesouro Nacional, a prefeitura fez empréstimos do Banco do Brasil, Caixa Econômica, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social, Banco Interamericano de Desenvolvimento e Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento.

O valor emprestado pelas duas últimas gestões de Arthur é 5 vezes maior que os empréstimos feitos pelos seus dois últimos antecessores. Amazonino Mendes (Podemos) emprestou R$ 504,6 milhões e Serafim Corrêa (PSB) R$ 581,2 milhões.

Mandatos (na Câmara dos Deputados):

Deputado(a) Federal - 1983-1987, AM, PMDB. Posse: 01/02/1983; Deputado Federal - 1995-1999, AM, PSDB. Posse: 01/02/1995; Deputado(a) Federal - 1999-2003, AM, PSDB. Posse: 01/02/1999.

Licenças:

Licenciou-se do mandato de Deputado Federal, na legislatura 1999-2003, para assumir o cargo de Chefe da Secretária-Geral da Presidência da República, de 14 de novembro de 2001 a 3 de abril de 2002, assumindo, como suplente, o Deputado Francisco do Nascimento Gomes (PL/AM). O Deputado Arthur Virgílio reassume em 03/04/2002.

Atividades Partidárias:

Membro, Primeira Comissão Provisória do MDB, Rio de Janeiro, RJ, 1966; Vice-Presidente, Primeira Comissão Provisória do PMDB, Manaus, AM, 1980; Coordenador, Campanha pelas Diretas, PMDB, Manaus, AM, 1984; Coordenador, Campanha de Tancredo Neves, PMDB, Manaus, AM, 1984; Vice-Líder, PMDB, 1983; Vice-Líder; PSB, 1986; Presidente Regional, PSB, Manaus, AM, 1987-1989; Coordenador, Campanha de Mário Covas, Presidência da República, PSDB, Manaus, AM, 1989; Membro, Diretório Nacional do PSDB, 1990; Presidente Regional do PSDB, AM, 1993; Coordenador, Campanha de Fernando Henrique Cardoso, Presidência da República, PSDB, AM, 1994; Vice-Líder, PSDB, 1995-1996 e 1997.

Secretário-geral da Comissão Executiva Nacional, PSDB, 1996; Viagem, Missão do Partido da Social Democracia Brasileira, Suécia e Inglaterra, 1997;.

 

Atividades Parlamentares:

CÂMARA DOS DEPUTADOS - Legislaturas anteriores à 54ª:

COMISSÕES PERMANENTES: Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática: Suplente; Constituição e Justiça: Titular, 1983; Economia, Indústria e Comércio: Titular, 1983; Fiscalização Financeira e Controle: Titular, 1995; Minas e Energia: Titular, 1983; Relações Exteriores e de Defesa Nacional: Titular, Suplente, 1983.

CPI: Arrecadação e Destinação da Verba da TORMB e Atuação do IBAMA. Delfin/BNH: Membro.

 

Mandatos Externos:

Prefeito(a) , AM, Partido: PSB, Período: 1989 a 1993.

Atividades Profissionais e Cargos Públicos:

Professor particular de inglês, francês e português, 1964-1974; Funcionário de carreira diplomática, Terceiro-Secretário, 1976-1979, Membro do Parlamento Latino-americano, 1984-1986; Articulista do jornal "A Crítica", Manaus, AM; Colaborador do Jornal Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, RJ, 1968. Segundo-Secretário, Departamento de Organismos Internacionais do MRE, 1979-1991, e Primeiro-Secretário, 1991-, MRE; Secretário-Geral da Presidência da República, 2001-2002.

Para alguém que construiu uma carreira politica exemplar e teve uma vida pública memorável, terminar seus dias como um gestor irresponsável, um cidadão que não se mostra digno de sua sociedade, um gestor que destruiu sua cidade e um homem que trocou toda a sua história de vida politica, pública e social, por uma vaidade causada por uma paixão doentia, Arthur assim se despede. Este homem enterrou seu brilhante currículo na mesma vala comum onde enterrou cidadãos como indigentes diante da dor de seus parentes. Este homem não entrará para a história como se esperava, a exemplo de Getúlio Vargas e Gilberto Mestrinho. Infelizmente chega ao fim como um indigente, tais quais as vitimas da pandemia que mesmo se escusou de zelar por suas vidas.

“Vontades transformam um rei em escravo quando põe o mundo atrás das grades”.