sábado, 08 de maio de 2021
Saúde

Na falta de atenção dos governos: Indígenas criam enfermaria de campanha para pacientes com Covid-19 em Manaus

06 março 2021 - 10h29Por Silvio Rodrigues

A crise da falta de leitos e oxigênio em Manaus levou os moradores do Parque das Tribos, primeiro bairro indígena da capital amazonense, a criarem um espaço para o tratamento de indígenas infectados pelo novo coronavírus. Batizada de Unidade de Apoio Indígena (UAPI), a iniciativa é liderada pela auxiliar de enfermagem Vanda Ortega, primeira vacinada contra a Covid-19 no Amazonas.

Vanda Ortega, indígena da etnia Witoto, faz caminhadas diárias batendo nas portas das casas dos vizinhos para saber se há pessoas com sintoma de covid-19 para estimular o tratamento e aproveitar, ainda, para pregar sobre a importância da vacinação.

A UAPI funciona como uma enfermaria de campanha adaptada à cultura e aos costumes indígenas. No lugar de macas, os pacientes utilizam redes. A intenção, segundo Vanda, que é indígena da etnia Witoto, é criar um ambiente mais acolhedor.

A técnica de enfermagem de 33 anos mora há sete no maior bairro indígena na área urbana de uma cidade brasileira, o Parque das Tribos, na zona oeste de Manaus, onde vivem mais de 2 mil indígenas de 35 etnias das mais de 60 do Amazonas.

O tratamento também respeita a medicina tradicional indígena. Além de medicamentos que agem contra os efeitos da Covid-19, o uso de chás, ervas e folhas é disseminado. Vanda explica que a Covid-19 se espalhou rápido pela comunidade. "Com o avanço do vírus, o quantitativo de pessoas doentes só foi aumentando", detalhou.

A UAPI não recebe apoio da prefeitura de Manaus, nem do governo do Amazonas. Os insumos foram adquiridos por recursos dos próprios moradores do Parque das Tribos e por doações, e os profissionais de saúde atuam de forma voluntária.

A Prefeitura de Manaus chegou a instalar uma UBS (Unidade Básica de Saúde) Móvel no Parque das Tribos, mas comunitários denunciam a falta de medicamentos e de profissionais para atender a demanda. O epidemiologista Jesem Orellana, da Fiocruz Amazônia, defende a instalação de uma unidade específica para o atendimento de indígenas com Covid-19. "Levar esses pacientes para outros tipos de hospital é algo desaconselhado".

A demanda por ações de saúde para indígenas em contexto urbano diante da pandemia é antiga. Em 11 de abril de 2020, o então ministro da Saúde Henrique Mandetta prometeu a instalação de um hospital de campanha indígena em Manaus. No mês seguinte, o Ministério da Saúde inaugurou uma ala com 53 leitos para atender indígenas no hospital de retaguarda estadual. Na época, lideranças locais classificaram a medida como insuficiente.

Vanda lembra da dificuldade de indígenas que vivem em cidades no acesso à saúde. "Quando nós, indígenas, saímos de nosso território demarcado, o destino são as periferias das grandes cidades e toda aquela marginalidade e invisibilidade também perpassa os indígenas das cidades", destaca.

O Parque das Tribos é um exemplo disso. Idealizado em 2014 pelo cacique Messias Kokama, morto em maio de 2020 vítima da Covid-19, a comunidade abriga cerca de 700 famílias indígenas, de 35 etnias diferentes. Miqueias Kokama, filho de Messias e atual cacique da comunidade, lembra que o bairro só começou a receber energia elétrica há dois anos. No local, muitas ruas sequer são asfaltadas.

Esquecido pelo poder público, o bairro não tem água encanada, fornecimento regular de luz elétrica, escolas e sequer um posto de saúde. Em janeiro, Vanda arregaçou as mangas e começou um périplo para conseguir doações para montar, em uma quadra cedida por uma igreja, um hospital de campanha onde as macas são redes. Até hoje, todos os medicamentos, equipamentos de proteção individual para os voluntários e cilindros de oxigênio seguem vindo de doações.

O acesso à água potável também é precário. Semanalmente, um caminhão pipa abastece algumas ruas do bairro, mas não todas. Moradores se juntaram para construir um poço tubular, que, mesmo assim, não atende toda a demanda. Miqueias conta que, sem saneamento básico, muitos indígenas não conseguem aderir às medidas de prevenção ao coronavírus. "As pessoas preferem usar a água para consumir, para beber do que para lavar as mãos".

A análise do cacique é reforçada pela pesquisadora Fabiene Vinente, da Fiocruz Amazônia. "Na cidade, indígenas não têm estrutura, seja de saúde, saneamento básico, educação ou segurança." Por isso, o impacto da pandemia sobre eles foi muito brutal, afinal, eles estão no meio da cidade e não isolados. Mesmo assim, há uma vulnerabilidade em relação ao vírus", disse.

O reconhecimento da vulnerabilidade dos povos indígenas perante o novo coronavírus se comprova na inclusão de indígenas aldeados no grupo prioritário da vacinação contra a Covid-19. A medida não inclui, no entanto, indígenas em contexto urbano.

Para Vinente, a divisão entre indígenas aldeados e indígenas em contexto urbano não faz sentido. "A pandemia não respeita essas fronteiras entre cidade e aldeia." Até esta quarta-feira (10), o Comitê Nacional de Vida e Memória Indígena, que compila dados de todo o país, registrou 48.222 casos confirmados e 958 mortes de indígenas por Covid-19 na maior parte, no Amazonas.

Vanda é funcionária pública e trabalha no Hospital Alfredo da Mata, referência no tratamento de câncer de pele no Estado. Ela foi a primeira indígena vacinada na Amazonas, imunizada no dia do lançamento da campanha da vacinação local, em 18 de janeiro. "Esse Estado precisa olhar para as populações indígenas, esse momento representa muito para meu povo Witoto e todos os 63 povos do Amazonas. Mas a vacina precisa chegar a todos, há uma precariedade em tudo para os povos indígenas, estamos agora fazendo um hospital de campanha com voluntários", disse, ao microfone.

Nascida na comunidade ribeirinha de Amaturá, Vanda se mudou para Manaus há 11 anos, onde se formou como técnica em enfermagem. Como é comum entre os povos indígenas, que chamam de "parentes" uns aos outros independente da etnia, a solidariedade passa de gerações. "Quando subi no palco para tomar a vacina, só pensava na minha sábia avó Tereza, pedia inspiração dela, que me ensinou a solidariedade para com meu povo e todos os outros parentes, e dei meu recado". Assevera.

A “UTI” do hospital de campanha, que, segundo Vanda, chegou a ter 12 internados

Desde aquela data e até hoje, é parada na rua e recebe mensagens de parentes questionando-a se sentiu algum efeito adverso da vacinação, se havia notado alguma mudança. “Perguntavam se eu não tinha virado jacaré, sem ser uma brincadeira, porque as fake news chegaram com uma força muito grande nas comunidades indígenas."

Seu esforço para conscientizar os conhecidos, entretanto, não tem sido suficiente para dar conta da desinformação. Em pelo menos duas ocasiões em que os técnicos de vacinação foram ao bairro, diz Vanda, muitos indígenas "se esconderam" dos profissionais. Para ela, parte o problema seria amenizado se houvesse um posto de saúde na comunidade, um local em que os indígenas fossem atendidos por rostos familiares e se sentissem seguros.

Fome

No hospital de campanha, a técnica de enfermagem faz as vezes de enfermeira, médica, psicóloga e o que mais for preciso. São onze indígenas que se revezam no atendimento aos pacientes que chegam diariamente. Em um quadro, cada um registra as atividades, com o nome e a etnia. Só o único médico e Vanda são formados, os outros são estudantes de enfermagem.

O médico, que não quis se identificar, é amazonense da etnia Baré, se formou em Cuba e já trabalhou com indígenas aldeados em Cuba e na Venezuela. Na pandemia, diz ele, o que lhe chamou atenção foi não só a desassistência das autoridades públicas na saúde dos "parentes", mas a fome que chegou ao bairro com o início da crise sanitária.

"A maioria vive de artesanato e de apresentações de rituais tradicionais a turistas. Com as restrições ao turismo, não havia nenhuma fonte de subsistência", diz Vanda.

Assim, as doações tiveram de ir além dos EPIs e de remédios. "Sem uma boa alimentação, qualquer um fica com baixa resistência e adoece. Perdemos muitos parentes, sabemos que o vírus ataca os mais fracos. Sou grata a nossos sagrados por tanta ajuda que evitou tantas mortes, mas, sem ter como trabalhar, continuamos em campanha."

Ouvir que alimentos estavam entre os itens de que a comunidade mais necessitava impactou o gerente de vendas Márcio Lira, um dos voluntários dos três grupos organizados em redes sociais que conseguiu arrecadar EPIs, cilindros de oxigênio e medicamentos.

"Conseguimos muitas doações em janeiro e priorizamos as cestas básicas. Conseguimos mais de 200 e deu para ajudar muitas famílias, mas sabemos que precisam de mais, a pandemia ainda não acabou."

Vanda e dois homens de máscara olham para foto, em área externa, ao lado de mesca com duas caixas de papelão

Vanda e dois técnicos de enfermagem posam para foto ao lado de caixas de medicamentos doados

Gravidade

Para o epidemiologista Jesem Orellana, da Fundação Osvaldo Cruz na Amazônia, a situação epidemiológica de Manaus e do Amazonas segue muito grave. "A pequena redução de casos notificados de covid-19 em Manaus nos últimos dias não coloca a cidade em posição confortável. Aliás, em média, foram notificados em torno de mil casos de covid-19 na capital por dia, entre os dias 1º e 15 de fevereiro, sugerindo que a circulação viral ainda é muito alta."

Para o epidemiologista, o anúncio de vacinação em massa da população do Amazonas, que ainda não começou, não é suficiente se não houver lockdown que restrinja 90% da atividade nas cidades, especialmente Manaus, onde vive mais de 50% da população do Estado. "A nova a nova variante P.1 segue aguardando novas oportunidades para trazer mais problemas. Ao que parece, Manaus está trilhando um roteiro conhecido, de naturalização da morte e do sofrimento humano, na certeza de escancarada impunidade no âmbito da gestão sanitária."

 

Em nota, a Secretaria de Saúde de Manaus afirmou que mantém a UBS Lindalva Damasceno, que fica a 4 km do Parque das Tribos, como unidade de referência para atenção primária às famílias indígenas da comunidade.

A pasta acrescenta que monitora a comunidade e articula, junto às lideranças , o fortalecimento das ações de saúde in loco. A nota, porém, não comenta a criação da UAPI.

Procurado, o governo do Amazonas disse que o atendimento de indígenas em contexto urbano acontece em UBSs e nos hospitais estaduais, "a exemplo do que acontece com os demais habitantes da cidade".