sexta, 07 de maio de 2021
Saúde

Manaus tem colapso total no serviço de saúde, profissionais sem pagamento, descaso nos atendimentos e cemitérios lotados.

11 janeiro 2021 - 01h41Por Silvio Rodrigues

A segunda onda de infecção pelo coronavirus veio com força tão intensa que quando alguém sente os sintomas, seu organismo já está muito comprometido. Isso é fato que se tem constatado diariamente nos hospitais e nas redes sociais, onde pessoas pedem orações por seus entes queridos, fazem protestos pelas perdas e pela falta de atendimento mínimo nos hospitais de Manaus.

É inaceitável ver que o descaso de muitas pessoas colaborou grandemente para o aumento de casos neste momento em que o vírus veio muito mais forte e devastador. São centenas de óbitos diários e enterros nos cemitérios da cidade por conta principalmente da falta de responsabilidade de pessoas que insistem em cometer aglomerações desnecessárias, fazer festas particulares, lotarem bares e promoverem partidas de futebol ou baladas. Mas, o mais doloroso é ver diariamente as pessoas que não têm como sobreviver se não pelo trabalho e a maioria pelo trabalho informal, e estes mesmos dependem diariamente do transporte coletivo.

O transporte coletivo de Manaus, também chamado por muitos de “navio negreiro”, nem mesmo neste momento de pandemia tem melhorado o atendimento à população. Nos principais horários de maior intensidade de público, os ônibus que atendem as zonas Leste e Norte, as mais populosas de Manaus, estão sempre lotados e isso, sem dúvida, é uma das maiores causas de infecção pelo maligno vírus.

Hospitais sobrecarregados, negligências e cobranças abusivas.

Não há hospital de Manaus que não esteja lotado. Sejam públicos ou privados, todos, sem exceção, estão lotados e alguns ampliando suas áreas de enfermarias para tentar de alguma forma, receber os pacientes que têm chegado a estas unidades com sintomas da doença.

As Unidades Básicas de Saúde, os Serviços de Pronto Atendimento e as Unidades de Pronto Atendimento, têm feito o atendimento aos pacientes com sintomas iniciais e somente em casos de agravamento, encaminham para os hospitais de referência.

Os hospitais particulares têm emitido notas à imprensa sobre suas sobrelotações, entretanto, um irmão de um paciente que hoje se encontra internado no Hospital 28 de agosto falou à nossa reportagem que seu irmão que tem plano de saúde categoria especial da SAMEL, foi rejeitado naquele hospital quando procurou atendimento, e o mais absurdo foi que cobraram uma taxa exorbitante para aceitar o paciente.

Artêmio Soares, irmão do paciente falou sobre o caso.  “Meu irmão, juntamente com sua esposa e filha adoeceram, mas somente ele apresentou estado mais severo e quando procurou o hospital da SAMEL, de onde a família tem plano especial, depois de ter que pagar R$600,00 num serviço de ambulância particular, visto que o SAMU não poderia atender, a direção do hospital informou que ele só poderia ser internado mediante depósito de R$50.000,00, o que nos causou indignação e o levamos para o 28 de agosto onde também não recebeu atendimento digno. Ficou largado em uma enfermaria sem sequer receber atendimento de higiene; só melhorou quando contratamos serviço de enfermagem e fisioterapeuta particulares para ajudar nos cuidados. Destacou Soares.

Outras pessoas têm reclamado também do atendimento no Hospital Rio Negro da Hapvida, que por pura negligencia têm levado muitas vidas à perda. Segue o relato de Arlene Lima, pessoa que junto com sua mãe, ora falecida, viveu uma verdadeira via crucis:

“Como muitas pessoas me perguntam, vou relatar a trajetória da minha mãe na Hapvida, pedindo antemão, aos familiares e amigos que adoecerem, por favor, não levem especificamente pra esse hospital, tentem fazer os protocolos para se tratar em casa, pois as pessoas estão morrendo injustamente. Entendo o ponto de vista do colapso na saúde, mas nada justifica tanto descaso em Manaus.

Tivemos nove meses para nos preparar e esses governantes corruptos, nada fizeram para melhorar as condições de saúde no Estado, estão cada vez mais ricos e nós, cada vez mais devastados a cada perda.

Minha mãe estava se recuperando devagar, era do grupo de risco por causa da idade, não tinha morbidades, foi transferida do Hospital São Lucas numa ambulância que saiu desgovernada no meio da chuva, (sei disso porque li relatos desesperados dela no WhatsApp) ela ficou super nervosa e já chegou S.P.A do Distrito, com a saturação baixa, nem fisioterapia fazia, dividia máscara com quatro pessoas. Minha mãe piorou em dois dias. Ressalto que ela foi transferida como se já estivesse bem, para dar vagas dos leitos aos casos mais graves, porém não nos deram um boletim médico.

Minha mãe teve que retornar às pressas na noite de 31/12, ao Hospital Rio Negro em estado grave. Ficamos dias sem notícias, só Deus sabe o quanto sofremos, recebi a informação por um técnico de enfermagem que entubaram minha mãe por falta de oxigênio no hospital.

Minha mãe faleceu, e pra piorar, roubaram a bolsa com todos os documentos dela e o oxímetro que compramos, mandaram os pertences numa sacola plástica.

Tento não me apegar a isso, mas existe uma indignação no meu coração e não posso espiritualizar tudo. É mais fácil saber que era a hora dela e me conformar, mas somos humanos, se houve imprudência, que paguem por essa vida tão preciosa pra nós.

Minha tia acrescentou algo muito importante nos comentários:

Tivemos que mover uma ação contra esse hospital para obter informações da minha mãe, o juiz acatou no mesmo dia, mesmo assim ainda tivemos problemas para receber o boletim, ou seja, eles não estão nem aí pra nada, nem pra ninguém, esse negócio de que estão sobrecarregados não tira a necessidade de sermos humanos, independente da situação. Dizer como a paciente está era o mínimo que podiam fazer".

“Deixo aqui, meu alerta e desabafo a todos vocês, façam os protocolos em casa e ponderem essas internações”.

CECON nega receita médica por falta de “sistema”

Na madrugada de sábado para domingo, as 2:20 horas, a senhora Rozelí Rodrigues Caldas, 64 anos, paciente operada de câncer mamário em estado de recuperação, deu entrada na recepção do Hospital CECON, com pico de pressão arterial em 19x9, acompanhada de uma prima e um irmão, após tentarem atendimento nos hospitais João Lúcio e 28 de agosto, onde também não foi atendida  sob alegação de superlotação e falta de médicos para acolhimento.

Chegando ao CECON, dona Rozelí teve que esperar por mais de uma hora para ser atendida, mesmo tendo seu estado de saúde delicado e requerendo urgência. Quando enfim foi atendida, o médico não identificado constatou sua pressão alta e a dispensou sob protesto de sua prima que a acompanhava, alegando que nada poderia fazer em favor da paciente e que não iria também emitir receita médica por falta se sistema no hospital, ficando a paciente sem nenhuma receita médica, digital ou impressa.

Entendemos que a receita digital hoje é uma realidade; porém, é inadmissível que uma pessoa que necessite de medicamentos para manutenção e estabilidade mínima de seu estado de saúde, não receba do médico atendente uma receita impressa, o que é a coisa mais simples em um consultório. É no mínimo estranho que um hospital dependa totalmente de um sistema de informática falho e que seus pacientes fiquem a mercê do falido “SISTEMA”. Algo muito parecido com o que se passa nos bancos há mais de 30 anos e se repete hoje no serviço de saúde.

Profissionais da saúde sem pagamento

Na quinta-feira, dia 7 do corrente, profissionais de enfermagem fizeram paralisação e manifesto em frente ao Hospital Platão Araújo para protestar contra a falta de pagamento por parte da empresa SEGEAM, prestadora de serviços de enfermagem à Secretaria de Saúde do Estado.

Segundo afirma o Técnico de Enfermagem Josimar Marinho, eles não têm recebido pelos plantões. “Queremos chamar a atenção do Governador para a situação dos Técnicos de Enfermagem. Desde 2017 temos trabalhado em plantões e a empresa não nos pagou. A SESAM diz que paga a SEGEAM e a mesma diz que não nos paga porque não recebe do governo. Nós somos linha de frente nos hospitais e não queremos jamais que a população seja prejudicada por uma possível paralisação de nossa parte, seria uma atitude covarde e já decidimos protestar sem prejuízos aos pacientes”. Afirmou Marinho.

Filas nos cemitérios e número crescente de mortes

O numero de mortes em decorrência da pandemia do covid 19 cresceu assustadoramente neste período de segunda onda. Manaus registrou o maior número de enterros diários desde o início da pandemia: foram 144 pessoas sepultadas apenas neste domingo (10). Delas, 62 tiveram a causa confirmada para Covid-19.

A última vez que Manaus teve tantos enterros em um único dia foi em 26 de abril, quando foram registrados 140 sepultamentos. Na época, enfrentava-se a primeira onda da Covid-19, que lotou hospitais e cemitérios, e, por conta do colapso, teve caixões enterrados em valas comuns. Manaus voltou a enfrentar um novo  surto de Covid-19 e o cenário devastador é visto mais uma vez nos hospitais. Apenas nos nove primeiros dias de janeiro, o número de novas internações superou o total de todo o mês de dezembro.

Neste domingo (10), segundo boletim da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM), foram confirmados 965 novos casos de Covid, e o total de infectados chegou a 213.961. O número de mortes subiu para 5.701, com 22 óbitos ocorridos nas últimas 24 horas e 10 confirmados após investigação.

A difícil escolha entre a vida e a morte de pacientes

Uma médica que atua na rede pública de Manaus e prefere não se identificar, não esconde a indignação. Para a nossa reportagem, ela revelou a difícil situação de quem trabalha nessas unidades: “A gente tem que decidir entre quem vive e quem morre. Se eu tenho um ventilador disponível e três pacientes precisando, e eu tenho muito mais do que três. Por exemplo, eu tenho que escolher entre um paciente de 19, um de 30 e um de 75. Quem é o mais importante? Todos são. Esse é o motivo de angústia, escolher entre quem vai viver e quem vai morrer. Essa é uma responsabilidade ridícula e absurda”. Lamentou.

A médica afirmou ainda que um dos motivos de angústia para os profissionais é ter que decidir entre 'quem vive e quem morre'. Em Manaus, uma médica que atua na rede pública e prefere não mostrar o rosto não esconde a indignação. Para a reportagem, ela revelou a rotina de quem trabalha nessas unidades. “Então os pacientes chegam e alguns estão internados em cadeiras, sem fonte de oxigênio, porque não há onde colocar. A gente não tem como amontoar, então seria como você colocar animais dentro de uma jaula. É exatamente assim que eu comparo. Você está amontoando pessoas sem prestação de assistência adequada, porque o sistema está colapsado”.

A médica afirmou ainda que um dos motivos de angústia para os profissionais é ter que decidir entre quem vive e quem morre. “Os profissionais estão desgastados física e emocionalmente por conta disso, porque já existem os pacientes que estão internados nas macas, nos divãs, alguns pacientes entubados nas salas rosa e não para de chegar paciente, porque você não pode fechar a porta. Você não pode recusar o atendimento”. Asseverou a médica.

Com a palavra as autoridades governamentais

Na noite deste domingo (10), o Prefeito David Almeida fez uma transmissão ao vivo em sua página no Facebook pedindo à população que siga as orientações das agências e profissionais de saúde para que seja evitado aumento de casos, visto que a cada dia a situação tem piorado e o sistema de saúde não suporta mais o numero de doentes que chegam a todos os minutos nos hospitais públicos e privados.  O Prefeito pediu ainda que a população faça o máximo de esforço para manter o isolamento social e não deixar de utilizar máscaras e a higienização constante.

O governador Wilson Lima anunciou que a rede pública de saúde está no limite e que vai iniciar o processo de reabertura do Hospital de Campanha Nilton Lins, mas não deu uma data. O Hospital de Campanha Nilton Lins funcionou entre abril e julho do ano passado, no pico da pandemia.

A Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM) informou, em nota, que um Hospital de Campanha está contemplado na quarta fase do Plano de Contingência que começou a ser colocado em prática no final do mês de outubro de 2020. Por entender ser esta a solução mais rápida para o Amazonas, optou-se em substituí-lo por uma estrutura hospitalar pronta, no caso o Hospital da Universidade Nilton Lins.

Resta saber se Estado ou Município, quem vai assumir o hospital de campanha da Nilton Lins, uma vez que ambos anunciaram a reocupação do referido hospital de campanha. Quem vai assumir é o que menos importa; o mais importante para todos é que haja sim um hospital para garantir o atendimento à população.

O Amazonas já tem mais de 212 mil casos confirmados de Covid-19. O total de mortes passa de 5,6 mil. Neste domingo, o Amazonas teve o maior numero de novas internações e o número de enterros na capital amazonense também foi o maior.

Que haja consciência coletiva e individual, de cada governante e de cada cidadão, e que Deus nos dê livramento e faça cessar esse terror noturno, essa peste que se propaga nas trevas e a mortandade que assola ao meio dia.