sexta, 07 de maio de 2021
Saúde

Fanatismo religioso provoca “revolta da vacina” entre indígenas

27 fevereiro 2021 - 21h08Por Silvio Rodrigues

Priorizados no plano nacional, indígenas mostram resistência à vacina contra covid-19 influenciados por mentiras propagadas por líderes evangélicos, segundo relatos. "Há pastores orientando indígenas para que não tomem a vacina, porque 'não é de Deus", diz coordenadora da COIAB.

Vacina

Na Terra Indígena Araribóia, na Amazônia maranhense, doses de vacina contra a covid-19 começaram a chegar. Ao mesmo tempo que aldeias aguardam com ansiedade o imunizante, há também uma resistência grande. Pastores e membros de igrejas evangélicas locais vêm pedindo aos indígenas que não se vacinem, segundo relatos coletados pela DW Brasil.

"Eles [líderes evangélicos] estão dizendo que [a vacina] vem junto com um chip, que tem o número da besta, que vira jacaré…", conta uma assistente social que conversou com a DW Brasil e prefere não ter seu nome revelado nesta reportagem.

Ela está em missão especial na região para esclarecer como as vacinas de fato funcionam. A campanha de desinformação é difundida via áudios e vídeos pelo celular, pelo sistema de radiofonia entre as aldeias e por cultos presenciais, aponta.

No caso do Maranhão, relatam indígenas, a maior influência é da igreja Assembleia de Deus. A DW entrou em contato com a Convenção Geral das Assembleias de Deus para esclarecer se a entidade é contrária à vacinação, mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem.

Mais de 220 mil brasileiros morreram vítimas da covid-19. Segundo apontaram testes, as duas vacinas aplicadas atualmente momento no Brasil, Coronavac e Oxford-AstraZeneca, com eficácias diferentes, ajudam a diminuir o número de pacientes graves que precisam de internação, além de protegerem contra o vírus.

Segundo a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), do Ministério da Saúde, foram confirmados 41.251 casos da doença entre essa população, com 541 mortes.

O dado oficial, que não considera aqueles que vivem fora dos territórios homologados, não reflete a realidade da pandemia, afirmam organizações indígenas, apontando que o número seria, na verdade, três vezes maior.

"Vacina não é de Deus"

No estado do Amazonas, que sofre com a alta de casos e falta de oxigênio para pacientes, há relatos semelhantes de desinformação.  “Há pastores orientando os parentes [como indígenas se chamam] para que não tomem a vacina, porque 'não é de Deus”, afirma Nara Baré, coordenadora-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), mencionando casos relatados em Itacoatiara, região do rio Urubu, Manaus, Xingu (Mato Grosso) e Rondônia.

Em várias aldeias indígenas remotas na Amazônia brasileira há resistência feroz em algumas comunidades onde missionários evangélicos estão provocando o medo em relação à vacina, dizem defensores e líderes tribais. Na reserva de São Francisco, no estado do Amazonas, o povo Jamamadi, expulsou profissionais de saúde com arcos e flechas em visita neste mês, disse Claudemir da Silva, líder Apurinã que representa comunidades indígenas do rio Purus, afluente do Rio Amazonas.

"Não é em todas as aldeias que têm missionários ou igrejas evangélicas com pastores que estão fazendo a cabeça dos indígenas para não tomar vacina com essas histórias de que tem chip, que vai virar jacaré, umas desculpas doidas". Disse o líder.

Isso acrescenta aos temores de que a covid-19 pode assolar a população indígena brasileira de mais de 800 mil pessoas, cujos hábitos de vida em moradias comunais e acesso à saúde muitas vezes precário as tornam uma prioridade no programa nacional de imunização.

Mapear o curso dessa campanha de desinformação entre indígenas, por outro lado, tem sido um desafio. "A grande questão é que os que são seguidores dessas igrejas não falam. São os familiares desses parentes que contam porque eles estão muito preocupados", detalha.

Na região do Vale do Javari, que tem a maior concentração de povos isolados do mundo, a situação se repete, segundo Beto Marubo, da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (UNIJAVA). "Aldeias já disseram à SESAI que não irão aceitar a vacina", conta.

As comunidades resistentes seriam aquelas vinculadas a grupos evangélicos. "Na comunicação que eles fazem por rádio, que todas as aldeias escutam, eles dizem que a vacina foi fabricada muito rápido para os indígenas virarem cobaia", explica Marubo.

A situação piora o já grave quadro da pandemia, diz Marubo. "A atuação de grupos religiosos nesse contexto de pandemia é tão nefasta quanto o coronavírus. Isso nos desestabiliza, cria incerteza, desconfiança com a vacina", opina. Na região isolada, à qual os imunizantes chegam principalmente por via aérea, doses estão sendo aplicadas no Alto Rio Itaquaí e Alto Rio Jutaí.

Mais vulneráveis

A priorização dos indígenas na campanha nacional de vacinação ocorreu depois de uma grande mobilização das lideranças junto à Justiça. Uma ação no Supremo Tribunal  Federal (STF) determinou que a União elaborasse um plano de enfrentamento específico. Além de serem mais suscetíveis a doenças infectocontagiosas, indígenas têm sofrido com maiores taxas de mortalidade pela covid-19 em relação à população em geral, como mostrou um estudo recente da COIAB e do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).

Segundo informações do Ministério da Saúde, 410 mil indígenas maiores de 18 anos e que vivem em aldeias devem ser vacinados nesta primeira fase, além de 20 mil profissionais de saúde que trabalham diretamente no atendimento a essa população.

Povos atingidos

A campanha antivacina de líderes religiosos preocupa lideranças indígenas. A SESAI (Secretaria Especial de Saúde Indígena), órgão vinculado ao Ministério da Saúde, contabiliza 43.061 indígenas infectados pela Covid-19 e 570 mortos em todo o Brasil.

Diante dessa realidade, nas redes sociais é possível encontrar vídeos de lideranças indígenas, como Marcos Apurinã, incentivando a vacinação. “Meus parentes, a vacinação é a forma mais segura e eficaz de prevenir doenças e salvar vidas, neste momento de pandemia ela é a nossa única esperança de vencer esse caos causado pela Covid-19”.

Quando somos vacinados, não estamos apenas protegendo a nós mesmos, mas também aqueles que estão ao nosso redor. Se você tiver a oportunidade, não pense duas vezes. Tome a Vacina! Exerça seu direito e Salve Vidas!”, diz.

Em nota, o Ministério da Saúde, por meio da SESAI, informa que, as Equipes Multidisciplinares de Saúde Indígena (EMSI) dos 34 DSEI têm trabalhado constantemente na conscientização sobre a imunização contra a Covid-19.

“Os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) receberam treinamentos e foram orientados a desenvolverem estratégias de educação em saúde adequadas ao contexto cultural de cada etnia, incluindo a elaboração de materiais e conteúdos audiovisuais na língua nativa para incentivo à participação na campanha de vacinação”, diz. 

A pasta ainda esclarece que a vacinação contra o novo coronavírus não é obrigatória. “Em caso de recusa de vacinação por parte dos indígenas, é realizado registro no prontuário médico, mantendo-se as ações de incentivo à participação na campanha de vacinação, destacando-se a importância da imunidade coletiva para proteção da comunidade como um todo. As doses são armazenadas na Rede de Frio – organizada pelo Programa Nacional de Imunização (PNI), mantendo-se à disposição dos indígenas em outras visitas das EMSI às aldeias”.

 

Procurada, a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) ainda não respondeu aos questionamentos enviados pela reportagem.