sábado, 08 de maio de 2021
Ciência e Tecnologia

Empresa russa oferece caminho para a imortalidade congelando corpos e cérebros

31 janeiro 2021 - 01h15Por Silvio Rodrigues

Uma empresa russa, especializada em criogenização, vem suscitando debates sobre o tema da criogenia, mas não esclarece algumas das principais dúvidas sobre a possibilidade de ressuscitar pessoas que tenham sido congeladas imediatamente após sua morte. Em relação aos avanços científicos necessários para trazer de volta à vida um corpo criogenizado com sucesso e o tempo que isso poderia levar, a empresa KriorUS afirma que, atualmente, isso é impossível, mas que a criobiologia avança a passos gigantescos.

No momento, a empresa está na corrida da vitrificação. Essa é uma tecnologia na qual os líquidos do organismo, através do congelamento adequado, não se transformam em cristais, mas em gel duro. Existem vários experimentos bem-sucedidos em animais, embora, no presente, ressuscitar alguém requeira uma tecnologia que existe apenas conceitualmente.

Reviver o organismo de um mamífero criogenizado será impossível em um futuro próximo ainda. “É necessário considerarmos que, hoje em dia, inclusive na medicina tradicional, o tempo médio entre a invenção e a prática é de 17 anos, e somente nos países de vanguarda tecnológica, de modo que não podemos esperar que apareçam tecnologias capazes de ressuscitar pacientes criogenizados antes de 50 ou até 100 anos. Embora tudo seja possível”, afirmou um porta-voz da empresa.

O que é a criônica ou criogenia?

Também chamada de criogenia, que é a ciência que estuda o congelamento de materiais, a criônica tem como objetivo “preservar” corpos humanos recém-falecidos para reanimá-los na posteridade. Muitos cientistas descartam essa possibilidade como algo mais ligado ao campo religioso do que a ciência, afinal as pessoas são congeladas e ficam à espera de um milagre científico capaz de curá-las de seu estado.

Apesar disso, os diferentes laboratórios criogênicos do mundo estão em franca operação e têm a permissão de seus respectivos governos para funcionarem normalmente. Existem muitas teorias plausíveis nesta área de pesquisa, assim como infindáveis problemas que precisam ser solucionados.

Há muitas razões para um ser humano querer ser congelado: desde a cura de doenças no futuro até a imortalidade.

A ideia de preservar cadáveres em temperaturas baixíssimas para revivê-los no futuro parece coisa de novela ou tema de ficção-científica, não é mesmo? Nem tanto. Só nos Estados Unidos, 331 pessoas já foram congeladas em tanques de nitrogênio líquido a 196 graus negativos, temperatura em que o cadáver não apodrece, em dois dos maiores laboratórios de criogenia do planeta: o Cryonics Institute, que fica em Michigan, e o Alcor Life Extension Foundation, no Arizona. Há um terceiro, o KrioRus, sediado em Moscou, na Rússia.

Dependendo da modalidade, o Alcor cobra US$ 200 mil para preservação do corpo inteiro e US$ 80 mil só do cérebro. Já o Cryonics cobra uma taxa de US$ 28 mil de seus membros vitalícios.

Óvulos, espermatozoides e embriões

A criogenia já é usada com bastante sucesso na preservação de embriões humanos e órgãos para transplantes. Mas, quando o assunto é a criopreservação de seres humanos, a história é outra. Para Andy Zawacki, diretor do Cryonics, que tem 171 pacientes “em suspensão criogênica”, a parte mais difícil é saber quando o indivíduo vai morrer. “O ideal é que, logo após sua morte, ele seja congelado o mais depressa possível. Dentro de minutos é o melhor”, avisa. Sem oxigenação, algumas células do corpo, como as neurológicas, por exemplo, não duram mais que cinco minutos.

Já Linda Chamberlain, cofundadora da Alcor, que contabiliza 160 pacientes criopreservados, diz que congelar o indivíduo é fácil, difícil é saber como ressuscitá-lo. Não bastasse ter que descobrir a cura para doenças hoje incuráveis, como o câncer e a esclerose lateral amiotrófica (ELA), a ciência ainda precisa desenvolver uma técnica segura e eficaz de degelo. “Pesquisas recentes mostram que amostras pequenas do cérebro podem ser vitrificadas e reaquecidas sem danificar sua estrutura. O desafio agora é aplicar esse conceito em algo tão grande como o corpo humano”, diz.

Em tese, o processo de criopreservação é simples. Primeiro, o sangue é drenado do corpo e, em seguida, substituído por um líquido crioprotetor, o M-22, à base de glicerina. O objetivo desta substância química é evitar a formação de cristais de gelo que podem causar danos irreparáveis nas células do organismo. Depois, o cadáver é submetido, gradualmente, a baixas temperaturas até ser finalmente levado para um tanque de nitrogênio líquido, onde permanecerá de cabeça para baixo. O motivo para isso é que, em caso de vazamento, o cérebro fica protegido na base do freezer.

O diretor clínico do Centro de Criogenia Brasil (CCB), Carlos Alexandre Ayoub, classifica a criopreservação de cadáveres de “farsa”. Ele explica a razão. “Quer ser criopreservado? Então, seja em vida. Caso contrário, ninguém vai conseguir preservar sua memória. Se Einstein tivesse sido congelado e, anos depois, voltasse à vida, não saberia explicar o que é a Teoria da Relatividade”, exemplifica. Por essa razão, considera a hipótese da inteligência artificial mais viável. “Daqui a 5 ou 10 anos, vou salvar minha memória e implantá-la num robô. E vou viver eternamente”, prevê.

Famosos congelados

O primeiro caso de criogenia de que se tem notícia é o de James Bedford. Professor de Psicologia da Universidade da Califórnia morreu, em 12 de janeiro de 1967, aos 73 anos, vítima de câncer nos rins. Desde então, seu corpo já peregrinou por cinco diferentes laboratórios até chegar, em 1982, ao Alcor, onde permanece até hoje. Outros casos famosos são: o astro do beisebol Ted Williams (1918-2002), o físico Robert Ettinger, o “pai” da criogenia (1918-2011), e o programador Hal Finney, o pioneiro em bitcoin (1956-2014).

Arriscado ou não, já tem brasileiro na fila do Cryonics Institute. É o filósofo e antropólogo Diego Caleiro, de 32 anos. “Compreendo que só há sobreviventes entre os inscritos. É um barco salva-vidas com chances baixas de sucesso, mas é melhor que o fundo do oceano”, explica Caleiro, que nasceu em São Paulo e hoje mora em São Francisco, na Califórnia. Ele acredita que, daqui a 300 anos, se a espécie humana não tiver se autodestruído, a criogenia será uma tecnologia tão simples como um exame de raios-X. Supõe Caleiro.

Como funciona o processo?

Se você decidir que quer ser congelado, o primeiro passo é se inscrever em uma instituição que realize o procedimento. Normalmente, a taxa a ser paga gira em torno de 400 dólares por ano. Além disso, você é obrigado a fazer um seguro de vida alto que coloca a empresa como beneficiária, garantindo que ela vá ganhar muito dinheiro com a sua morte. Em outros casos, existe a cobrança de uma taxa de 150 mil dólares para o corpo inteiro e 50 mil dólares para a conservação do cérebro.

Quando seu coração parar de bater, uma equipe em prontidão vai estabilizar o seu corpo e fornecer oxigênio o suficiente para o seu cérebro e o seu sangue para que você permaneça apresentando algumas funções vitais. Durante o transporte até a instituição, seu corpo será colocado no gelo e receberá um anticoagulante potente para que não seque ou enrijeça.

Uma vez no laboratório de criogenia, o congelamento real começa. Você não é simplesmente mergulhado em nitrogênio líquido porque as células do seu corpo iriam congelar e quando a água assume este estado, ela se expande, o que simplesmente destruiria as células do seu organismo. Por isso, a equipe retira primeiro toda a água do seu corpo e substitui por um composto químico baseado em glycerol, que é chamado de crioprotetor. O objetivo dele é evitar a formação de cristais de gelo no interior do seu corpo. Este processo, chamado de vitrificação, permite que seu corpo seja emergido em temperaturas muito baixas sem efetivamente ser congelado, permanecendo em um estado de animação suspensa.

Quando a cirurgia termina (em média ela leva 4 horas), o corpo é levado para uma “cama” de gelo onde ele lentamente vai ter sua temperatura diminuída até chegar a 130 graus negativos. Em seguida, o cadáver é colocado em um container e depositado em um grande tanque com nitrogênio líquido em uma temperatura por volta dos 196 graus negativos. Os corpos sempre são conservados de cabeça para baixo para que em caso de vazamento, o cérebro permaneça sempre protegido pelo líquido.

Os problemas da criogenia

Além do problema mais importante, isto é, como reviver os corpos no futuro, a criogenia também apresenta diversas outras questões que a tornam uma “ciência” tão polêmica. Entre elas podemos dizer que os criônicos ainda não têm um plano efetivo sobre como reverter os danos biológicos causados pelo processo de esfriamento, não têm a tecnologia para reverter a vitrificação, que se vale de componentes tóxicos, e depositam todo o seu trabalho na esperança de que no futuro estas coisas terão sido resolvidas.

A KrioRus diz que centenas de clientes em potencial de quase 20 países se inscreveram no seu serviço de pós-morte.

Congelar o corpo inteiro custa 36 mil dólares e 15 mil dólares apenas para o cérebro se o cliente for russo. Os preços são um pouco mais altos para estrangeiros.

A empresa diz que é a única do setor na Rússia e região. Criada em 2005, a KrioRus possui pelo menos duas concorrentes nos Estados Unidos, onde a prática existe há ainda mais tempo.