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Mortes de mulheres e crianças por negligências continuam, e sem solução nas maternidades de Manaus.

22 dezembro 2020 - 10h50Por Silvio Rodrigues

Hipócrates é, ainda hoje, considerado o “Pai da Medicina”. Sua obra, que inclui os famosos Aforismos; os Quatro Princípios Fundamentais da medicina: jamais prejudicar o enfermo/não buscar aquilo que não é possível oferecer ao paciente, os famosos milagres/lutar contra o que está provocando a enfermidade/ acreditar no poder de cura da Natureza; e o Juramento que leva o seu nome, permanece atual, porém, muito negligenciado.

No ano de 2019, o médico obstetra Armando Araújo ficou conhecido como torturador e assassino de mulheres quando circulou um vídeo onde o mesmo humilhava uma adolescente, inclusive batendo na mesma na mesa de cirurgia; ocasião em que várias mulheres se manifestaram contra as atitudes do médico e denunciaram as atrocidades sofridas por algumas vítimas.

Uma mulher ouvida por nossa reportagem contou que quando se preparava para ter sua segunda filha em maio de 2017, o médico Armando insistiu em realizar um parto normal, mesmo ela tendo encaminhamento para fazer cesárea. Por conta do que ela considerou uma negligência, a mulher acabou pegando uma infecção hospitalar e perdeu parte da barriga. "O caso aconteceu quando fui ter a minha neném, que hoje tem 2 anos e 10 meses. Estava com muita dor e fui para a Maternidade Azilda Marreiro.

Cheguei lá com um centímetro de dilatação e o Doutor Armando me atendeu. Ele mandou eu ir para casa, porque a minha bolsa não tinha estourado. No outro dia, ainda com dor, fui parar no Instituto da Mulher e encontrei o Armando novamente. Ele disse que faria meu parto normal, mesmo com o encaminhamento de outra médica para cesárea. “Ele deixou claro que sabia o que fazia com as pacientes”, lembrou a entrevistada.

Ela também falou que Armando e outro médico colocaram-na no centro cirúrgico do Instituto da Mulher. No entanto, demoraram muito para fazer o procedimento médico e ela acabou pegando uma infecção. "No centro cirúrgico, Armando e outro médico começaram a discutir, porque não queriam realizar a minha cirurgia. Mas depois de um tempo me colocaram na anestesia e o outro médico realizou a cesárea. No outro dia, minha barriga começou a arder, peguei infecção e fiquei em coma. Acordei, mas perdi um lado da barriga", lamenta a mulher.

A mulher nos contou que receava denunciar o médico por temer represálias. Como ela precisaria passar por outra cirurgia, desta vez de reconstituição da barriga, ficou com medo de não conseguir o procedimento. "Tive o meu primeiro filho de cesárea, porque não tinha passagem. Para o parto da segunda criança, a médica me encaminhou novamente para o procedimento (cesárea). Eu ainda não tinha denunciado, porque precisava fazer essa cirurgia e fiquei com medo de não conseguir, mas quando vi toda a repercussão do vídeo, decidi fazer. Isso tudo me traumatizou muito. Hoje só consigo sair de casa com roupa grande e de cinta. Minha barriga ficou com tamanhos diferentes", lamentou ela.

Bolsa estourada com o dedo

Outro caso foi de uma mulher, que preferiu não se identificar por temer represálias, contou que Armando estourou a sua bolsa com o próprio dedo no dia 6 de maio de 2012 na Maternidade Ana Braga. O filho da vítima acabou nascendo com insuficiência respiratória e precisou passar por uma reanimação. "O doutor. Armando me deu um toque tão forte que machucou muito minha vagina e estourou minha bolsa. Eu comecei a chorar e em todo tempo ele ficava reclamando. Depois que saí da sala dele com dores fui tomar medicação e percebi que estava molhada. Fui ao banheiro e constatei que minha bolsa tinha estourado devido ao toque forte que ele me deu. Falei para as enfermeiras e elas disseram para eu me acalmar", relatou a mulher.

Depois que percebeu que a bolsa tinha estourado, a mulher entrou em desespero. As dores eram fortes e não tinha ninguém para atendê-la, porque o plantão de Armando tinha sido finalizado na unidade hospitalar. "Meu esposo e eu ficamos desesperados, pois estava com dores de parto desde as 2h da madrugada e isso já era entre 12h e 13h da tarde. Foi horrível e imaginava que meu filho e eu iríamos morrer, principalmente depois que este doutor fez isso comigo. Ele fez para me machucar, porque se chateou com meu nervosismo. Não tinha como eu não estar nervosa. Sou hipertensa e não havia como ter parto normal, pois eu não tinha passagem e ninguém queria fazer minha cesárea.

Paralisia cerebral

O pai de uma menina de 6 anos, relata que a sua esposa também foi vítima do médico Armando no dia 12 de dezembro de 2014. Após a demora em um procedimento de cesárea, a criança acabou ficando sem oxigênio na barriga da mãe e adquirindo paralisia cerebral. "O Armando se recusou a fazer a cesárea. Ele e outro médico ficaram discordando se faziam parto normal ou não. Mas ele negou, porque já tinha vendido todas as cirurgias cesáreas na Balbina naquele dia. Quando foram fazer o normal, perceberam que a minha mulher não tinha passagem, e tentaram fazer cesárea, mas já era tarde, porque a minha filha estava sem oxigênio", disse.

Os pais da criança só descobriram o verdadeiro diagnóstico da filha depois de meses. Ela ficou internada na Maternidade, mas os médicos não relataram o problema. "Ninguém falou nada na maternidade. Depois descobrimos que a minha filha não era normal, porque ela não olhava para cima e nem tentava falar. A pediatra diagnosticou-a com paralisia cerebral", comentou. O pai chegou a denunciar o caso no 1° Distrito Integrado de Polícia, na época em que o médico foi preso, mas nada foi resolvido. “Denunciamos o caso, mas a delegada mesmo falou para gente que nada iria ser resolvido, porque ele era funcionário público. Hoje a minha filha não anda, não fala, por conta da negligência dele", lamentou o pai.

Mostramos os casos de abuso do falecido médico Armando Andrade Araújo, o “doutor morte” para chamar a atenção sobre as negligencias que continuam ocorrendo com a mesma intensidade e nível de maldade nas maternidades de Manaus.

O descaso e a maldade continuam em 2020

O caso ora em questão ocorreu com a senhora de nome Sabrina que deu entrada em trabalho de parto na Maternidade Ana Braga, onde foi vitima de negligencia médica, ficando desde o dia 19 do corrente à espera de atendimento, e após esperar e sofrer desde as 23:30 horas de sábado, a mesma só foi atendida e com muita falta de vontade, as 18 horas de domingo (20), ocasião em que foi constatada a morte da criança.

Covid e insuficiência placentária

Os riscos associados à insuficiência placentária, como parto prematuro, falta de oxigênio para o bebê no momento do parto, hipoglicemia (baixa de açúcar no sangue) no bebê, problemas cerebrais ou pulmonares no bebê, e até de morte fetal podem ocorrer, mas não era o caso da senhora Sabrina, que nos afirmou que seu período gestacional foi tranquilo, que seu tratamento pré-natal foi feito sem faltas e todo acompanhamento médico e exames não acusaram qualquer anormalidade na gravidez.

Sabrina que já tinha dois filhos homens, desejava uma menina e a família aguardava festiva e ansiosa a chegada da criança que seria chamada Isabela, teve a vida de sua criança ceifada por pura maldade, por negligencia consciente e viu a dor e a frustração tomarem conta dela e de sua família.

O mais escandaloso, além da terrível falta de respeito com as vidas dessas pessoas, foi o fato de a maternidade emitir um laudo de causa-morte afirmando que a criança teria morrido por contaminação pelo vírus covid 19, mesmo sem ter nascido.

Pior que o rasgo é o remendo

Além do laudo absurdo, ainda tiveram uma segunda atitude imoral, indecente, antiética e ofensiva de logo após apresentarem um laudo impossível de se provar, emitiram um remendo afirmando desta vez que a criança havia perecido por insuficiência placentária, o que contraria os documentos do pré-natal de dona Sabrina.

 

 

O que é violência obstétrica?

Considera-se violência obstétrica todo ato praticado pelo profissional de saúde, pela equipe do hospital, por um familiar ou acompanhante que ofenda, de forma verbal ou física, as mulheres gestantes, em trabalho de parto ou, ainda, no período puerpério.

A violência obstétrica ocorreu e está ocorrendo tanto em instituições públicas como em privadas; por diferentes profissionais de saúde, com destaque para médicos e enfermeiros; com as mais diversas técnicas, ações e/ou atitudes, com ênfase para aquelas que se situam no campo da relação profissional-usuário que define a violência obstétrica como uma ação que se caracteriza por desrespeito com a mulher em relação aos direitos sexuais, reprodutivos e humanos. .

Pelas ocorrências desses fatos, foi criada uma política de humanização na assistência ao parto no Brasil, que têm como objetivo primordial a diminuição dessas práticas de agressões, negligencia, violência, desrespeito, entre outras, ao mínimo possível, que ocorre com essas mulheres gestantes. A violência, decorrente de seus múltiplos fatores que engloba questões como cultura, política, economia, sexualidade, gênero, religião, dentre outras situações, que vem sendo tratada como um problema, não só de saúde, universal e nesse contexto de violência é inserida a violência obstétrica.

A família vai recorrer ao Ministério Público Estadual para as devidas providências.

A maternidade Ana Braga se destaca há 12 anos como o lugar onde os casos de maus tratos, deformações e mortes ocorrem com maior frequência. Infelizmente, as violências contra a mulher e a criança continuam acontecendo em Manaus e as autoridades incompetentes fazem vista grossa e ouvido de mercador.