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Maternidade Ana Braga se destaca há 12 anos como lugar de torturas, deformações e mortes.

22 dezembro 2020 - 15h54Por Silvio Rodrigues

De acordo com funcionários que não quiseram se identificar, além dos equipamentos, também falta roupa limpa e adequada para trabalharem no ambiente cirúrgico, o que contraria as normas de saúde para o procedimento.

Médicos confirmam o descaso, embora o façam de forma velada, temendo represálias. Os profissionais relataram diversos absurdos que presenciam diariamente dentro da unidade e alguns “malabarismos”, senão "milagres", que fazem para evitar complicações nas pacientes devido às más condições do local. Segundo eles, as parturientes (mulheres que se encontram em trabalho de parto ou que acabaram de dar à luz) ficam "amontoadas" com os recém-nascidos por falta de climatização.

Em uma pequena sala adaptada e sem climatização, ficam até nove mulheres com seus bebês, além de acompanhantes. Elas só podem usam abanadores para amenizar o calor.

Represália

Médicos e enfermeiros contam que a situação tem sido "abafada" pela direção na tentativa de evitar que o descaso se torne público. “A ordem é se não está satisfeito, pede pra sair. Quem não quiser trabalhar nessas condições pode pedir pra sair que as enfermeiras irão assumir o controle”, frase supostamente da direção, reproduzida por médicos. Os profissionais que trabalham na maternidade Ana Braga fazem parte do Instituto de Ginecologia e Obstetrícia do Amazonas (IGOAM).

Em março deste ano, uma mulher de 29 anos deu entrada na maternidade Ana Braga para realizar procedimentos médicos e entrou em trabalho de parto no corredor do hospital. A criança prematura, mesmo sendo socorrida, não resistiu e morreu na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). A denúncia é da própria família da paciente que alega que, entre exames e atendimentos médicos, teria sido abordada por um enfermeiro no corredor da unidade.

O suposto profissional identificado inicialmente como Flávio, teria impedido a mulher de retornar com a médica. “Na noite de ontem, tomei medicações para amadurecer o pulmão e o coração do bebê. Após sentir contrações,  procurei a maternidade, fiz a triagem e aguardei o atendimento médico. Só que ao ser chamada, os médicos estavam ocupados dentro da sala e pelo meu desespero, outros pacientes bateram na porta para pedir ajuda. Ao abrir a porta, fui impedida de entrar pelo enfermeiro. Após essa confusão, senti muitas dores e tentei subir na maca, acabei entrando em trabalho de parto ali mesmo”, comentou.

Esse profissional, segundo a mulher, a teria impedido de seguir os procedimentos, alegando que ela não estaria em trabalho de parto. Ela disse ainda que deu à luz no corredor do hospital, onde o recém-nascido teria batido a cabeça, após romper o cordão umbilical e caiu no chão.

Um tio da grávida estava presente no momento da ocorrência e reforçou o depoimento da sobrinha. “Ela deu entrada na maternidade, por volta das 19h, sentindo dores, pois estava entrando em trabalho de parto prematuro. A bolsa estourou no corredor, enquanto ela andava e a criança bateu a cabeça no chão”. Disse.

Nesta segunda-feira (21) faleceu Yasmim Andrômeda de 30 anos, que estava grávida de sete meses de uma menina e estava com quadro positivo para Covid-19.

Yasmim conseguiu internação na Maternidade Ana Braga.  Estava internada em uma enfermaria comum, mesmo estando infectada por Covid-19. Foi tentada transferência da gestante para o Hospital e Pronto-Socorro João Lúcio que não foi possível por falta de ambulância. “Minha filha vai morrer, ninguém faz nada”, disse Kátia Ventura, mãe de Yasmim, chorando. Depois de sofrer com muitas dores, finalmente foi submetida a uma cirurgia de emergência após ser transferida para o Hospital e Pronto-Socorro 28 de Agosto. O caso dela era gravíssimo. Uma úlcera rompeu e o líquido espalhou pelo corpo, atingindo, o bebê com 7 meses em gestação, o cérebro e sangue. A criança que estava viva, não sobreviveu e faleceu. Demorou muito o socorro. Mataram mãe e filha.

Infeliz realidade do serviço de atendimento à saúde no Estado do Amazonas, onde mercenários travestidos de profissionais de saúde, torturam, deformam e matam sorrindo.

Serviço

Mulheres vítimas de violência obstétrica podem procurar a Defensoria Pública na Casa da Cidadania, localizada na rua 2, casa 7, no conjunto Celetramazon, bairro Adrianópolis e nos telefones 3642-0183 e 3611-2030, e também na sede administrativa da DPE-AM, na rua Maceió, n° 307, bairro Nossa Senhora das Graças, caso queriam entrar com ação reparatória (indenizatória).

Se for o caso de uma “violência” em curso, por exemplo, se a mulher não estiver conseguindo uma cirurgia, estiver em trabalho de parto e tiver qualquer obstáculo para conseguir internação, os familiares podem procurar a unidade de Saúde da Defensoria, na rua 24 de Maio, n° 321, no Centro de Manaus, e no telefone 3622-6966. O plantão cível na Defensoria Criminal, na avenida Umberto Calderaro Filho, em frente ao hotel Blue Tree, também está à disposição para casos do tipo.