sábado, 08 de maio de 2021
A PM DO BRASIL PRECISA DO APOIO DA POPULAÇÃO

A tropa está doente; nossos policiais pedem socorro

Desabafo de sargento revela o sofrimento diário de policiais que sacrificam a família e a vida para proteger aqueles que muitas vezes os criticam

28 dezembro 2019 - 22h46Por Fabrício Cavalcante

O texto a seguir foi escrito por um sargento da Polícia Militar; aqui, ele faz um relato da rotina de alguns que servem sob seu comando; enfrentando sono, doença, distâncias e trabalhando muitas vezes numa escala desumana. Isso só nos mostra que no Brasil, a PM ainda não é valorizada como deveria. E um alerta: além do apoio, respeito e parceria que a população precisa ter com a Polícia, a tropa também precisa da atenção do alto comando, do governo e dos políticos. 

''Estou sentindo uma necessidade enorme de me expressar sobre o suicídio desse policial, mas não estou conseguindo. Ouvi os áudios que ele deixou antes de dar fim à própria vida, os depoimentos que vinha postando no perfil ultimamente... É de arrepiar! Comecei questionando a máxima de que "Tempos difíceis geram homens fortes". Achei insensível e preferi não fazer a abordagem por aí.

Não conhecia o garoto, não sabia das suas dificuldades... Não seria justo.

Depois tentei entender e me posicionar pelo prisma da espiritualidade, mas também não fiquei confortável. Por fim, decidi pensar nos meus aqui.

Eu estou de serviço hoje, sabe?

Por 24 longas horas, vou ser o único responsável pelas atitudes de 30 homens. Trinta.

Minhas decisões aqui hoje, podem influenciar diretamente na vida de centenas de famílias que moram na comunidade, nas famílias que esses policiais deixaram em casa. Complicado.

Um deles me mandou mensagem ainda ontem, dizendo que viria trabalhar, mas que, se eu não me opusesse, preferia não operar no terreno hoje. É que aconteceu uma chacina no bairro dele ontem à noite, e ele perdeu um grande amigo de infância. Tem outro que chegou às 10h30. Suando, com o olho arregalado por conta das 4h de atraso.

Apresentou-se pra mim com um jeito de quem tinha um milhão de explicações pra dar.

O rapaz mora na divisa com Minas Gerais. Sei perfeitamente que, se acontece qualquer problema com o ônibus dele, degringola tudo. Eu sei; a Polícia talvez não saiba... Pois exige que um cara morador dos limites do Estado, venha trabalhar em Copacabana às 6 da manhã.

Não o deixei falar. Apertei sua mão com força e olhei nos olhos dele como quem diz:

- Vai trabalhar. Resolvo por aqui.

Tem outro, que depois de ser baleado numa tentativa de assalto, pegou sua família e se mudou pra Região dos Lagos. Decidiu que sua mulher e filho não tinham que pagar pela escolha de carreira que ele fez, e os levou pra um lugar mais tranquilo.

Ele ainda tem o projétil alojado na coluna, mas os médicos disseram que ele já pode trabalhar nas funções internas. Assim ele não tem que ficar longos períodos de pé ou sentado.

Bonzinhos, né? Só esqueceram-se de mencionar que, para chegar aqui, ele tem que dirigir por quase 3 horas, sair de casa no meio da madrugada, e atravessar muitas das vias mais perigosas do Rio de Janeiro.

Não vou falar do outro com a mulher em gestação de risco e problemas de coração, nem o outro com a mãe que tem Alzheimer, nem do outro cujo filho tem 03 anos e acabou de ser diagnosticado com autismo.

O texto vai ficar ainda mais longo. Estão todos aqui comigo hoje.

Sendo chamados de vermes por aquela mesma menina que outro dia eles socorreram para o Hospital Miguel Couto, com parada cardíaca causada por overdose.

Sendo chamados de corruptos por motoristas apressados, pelo simples fato de (cumprindo apenas ordens), estarem fazendo uma operação que tá engarrafando um pouco a entrada do Túnel Velho.

Eu perguntaria o que aconteceu com esse rapaz que mandou uma mensagem pros amigos dizendo:

"Irmãos, fiquem firmes e não façam o que eu vou fazer. Perdoem-me por isso, mas eu me encontro muito cansado! Estou aqui na porta e vou entrar para meu merecido descanso." E deu um tiro na própria cabeça.

Eu perguntaria: o que está acontecendo com os nossos jovens? Com a Segurança Pública do nosso país?

Ia. Não vou mais. Tenho 30 exemplos aqui hoje que me fazem entender.''

Autor do texto: Sargento PM Sirley Pinheiro